13:48 | 27/07/2017

Facilitação — uma conversa com Jorge Hoelzel Neto, da Mercur

O Facilitador é o profissional que guia um processo e o desenvolve em conjunto com os envolvidos

A Facilitação é uma prática que auxilia fluxos de trabalho e desenvolvimento coletivo e criativo para atingir um objetivo ou resolver um problema. É feita por meio da utilização de ferramentas e metodologias aplicadas por um ou mais Facilitadores e permite que organizações e pessoas trabalhem de forma mais eficaz. Para que uma facilitação funcione de forma honesta e coesa, é preciso haver horizontalidade, ou seja, abolição da hierarquia.

Assim, o Facilitador é o profissional que guia um processo e o desenvolve em conjunto com os envolvidos; ajuda um grupo de pessoas a compreender seus objetivos comuns, auxiliando-as a alcançar metas, sempre de olho no propósito; serve à necessidade do grupo e está sempre atento ao que emerge do coletivo. É comum, aliás, que em uma prática de Facilitação a quantidade de Facilitadores seja plural.

Fonte: shutterstock

Aos poucos, a Facilitação vem chegando a corporações tradicionais e atraindo aquelas mais atentas à questão da inovação. Uma dessas companhias é a Mercur, gigante produtora de borracha fundada em 1924 (e cujo portfólio passou a abrigar também produtos dos segmentos de educação, saúde, artigos esportivos e soluções customizadas). Em 2008, a empresa antecipou-se às mudanças sociais e do mercado e passou a usar a Facilitação como forma permanente de organização interna. A gestão tornou-se horizontal e a Mercur virou um case de inovação corporativa.

Nesse processo, Jorge Hoelzel Neto teve seu cargo de diretor rebatizado para Facilitador. Ele conta que, em 2008, por meio de uma consultoria que trabalha com questões de estruturação de estratégias de negócio com foco em sustentabilidade, a Mercur começou a trabalhar, internamente, questões ligadas a esse tema. “Mas nós só conseguimos unir pessoas para construir soluções sustentáveis quando estamos no mesmo nível de conversa”, diz. “Quando se tem uma empresa estruturada pela hierarquia tradicional, com diretor, gerente, supervisor e todos os ‘chefes’, fica muito mais difícil. Porque aí não há conversa, e sim ordens.”

Dessa percepção surgiu a necessidade de mudar o modelo de gestão para que todos os envolvidos, dos mais variados níveis hierárquicos, pudessem ter voz ativa. “Esse dia ficou conhecido na empresa como a Virada da Chave.

Passamos a trabalhar num processo de gestão muito mais horizontal do que vertical, criamos vários colegiados”, diz o Facilitador.

A Mercur passou, então, a promover rodas de conversa mensais para refletir e discutir questões cotidianas, inclusive aquelas que envolvem cargos, salários e funções. Segundo Neto, o maior compromisso é envolver as pessoas e criar, na prática, um ambiente 100% sustentável e horizontal, que seja percebido em toda cadeia produtiva — da concepção à comercialização dos produtos. “Criamos projetos como, por exemplo, o de diminuição das emissões de gás do efeito estufa. Em 2009, fizemos a primeira medição e estamos controlando, diminuindo as emissões e fazendo plantações de árvores nativas quando não conseguimos diminuir.”

A experiência da Mercur mostra que é possível subverter a lógica da indústria em relação a hierarquia de funcionários, sustentabilidade e orientação para o lucro. Mas dá trabalho. Neto explica que algumas tp, adas de decisões levam mais tempo, já que é preciso conversar com mais pessoas. “Por outro lado, quando as decisões são tomadas, elas são muito mais fortes. Posso afirmar que funciona muito bem, mas que é preciso de tempo para que isso se perpetue na cultura da empresa. É um processo muito jovem ainda e é natural que as pessoas tenham dúvidas a respeito.”

É também coletivamente que se resolve algo que não deu certo. O primeiro passo é reunir as pessoas e expor a questão. “Dessa forma, os problemas deixam de ser encarados como uma fonte insolúvel”, diz Neto. Já o grande desafio é manter o sistema em pé e ir avançando com ele. “Não podemos deixar que uma crise econômica, política ou financeira derrube o que a gente vem fazendo. Temos tido várias reuniões para colocar essas questões, principalmente pelo medo das pessoas com a crise e possíveis demissões. Queremos sempre deixar claro que o processo na Mercur é diferente e que precisamos estar juntos. Isso requer mais autonomia e responsabilidade de todos.”

Parece até utopia, mas não é. A Mercur está acompanhada de outras grandes corporações — como Petrobras, Itaú, Porto Seguro, Natura e Pfizer — que já contrataram metodologias de Facilitação ou desenvolveram Facilitadores internos. Nem sempre o processo altera toda a gestão, como aconteceu na Mercur. Mas, cada uma a seu modo e a seu tempo, essas companhias também começam a experimentar os benefícios de uma gestão horizontal.

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OLHO: “Quando se tem uma empresa estruturada pela hierarquia tradicional, com diretor, gerente, supervisor e todos os ‘chefes’, fica muito mais difícil. Porque aí não há conversa, e sim ordens.”