14:40 | 27/07/2017

As práticas e as tecnologias que posicionam a Embraer

Na Embraer, a inovação é transversal: ocorre em modelo de negócios, parcerias, processos, gestão, serviços e diversificação de Negócios

Na Embraer desde 1982, Mauro Kern foi alçado no início de 2015 ao posto de VP Executivo de Operações da fabricante mundial de aeronaves. Em entrevista a CNI Digital, ele revê os principais momentos do processo de automatização da linha de montagem da empresa, fala sobre as inovações incorporadas pelo Centro de Realidade Virtual, enumera os avanços alcançados a partir do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Aeronáutica e aborda os desafios para modernizar ainda mais o parque industrial.

Fonte: portal da indústria

Como a empresa descreve seu nível de automação atual, na comparação com outros fabricantes mundiais de aeronaves? Quais foram os principais marcos do processo de automatização da linha de montagem da empresa?

Hoje a Embraer possui nível de automação similar ao dos outros grandes fabricantes, o que a posiciona na vanguarda da indústria aeronáutica mundial. Como grandes marcos poderíamos mencionar o início do uso da realidade virtual, em 2000; a adoção de robôs, a partir de 2007; a adoção do MES (Sistema de Execução de Manufatura), a partir de 2012, que viabilizou na prática o conceito de fábrica digital, ao permitir aos profissionais da linha de produção e fornecedores de várias localidades prescindirem das instruções em papel e acessar os modelos 3D e as instruções mais recentes em tempo real, garantindo a precisão do produto final e do conjunto de instruções. Mais recentemente, a partir da introdução da linha do E2, no ano passado [em 2015], a Embraer avançou ainda mais, tornando-se a primeira empresa a adotar gabaritos móveis na montagem da asa, que ganha mais automatização.

O Centro de Realidade Virtual da Embraer em São José dos Campos existe desde 2000. Quais são seus principais benefícios e que inovações incorporou nesses 16 anos?

O grande benefício proporcionado pelo Centro de Realidade Virtual foi permitir a diferentes equipes estudarem a integração de sistemas na aeronave em 3D, antecipando eventuais dificuldades que seriam enfrentadas no mundo físico e buscando soluções ainda antes da montagem das aeronaves começar. Hoje, o conceito já é amplamente disseminado, mas talvez sua principal evolução tenha sido com o conceito de fábrica digital, acima descrito, em que a simulação 3D criada na engenharia está disponível até a ponta, o operador da produção, que pode acessar o modelo 3D com as instruções de como montar a peça ou sistema do qual ele é responsável.

O que é exatamente o Programa de Desenvolvimento da Cadeia Aeronáutica? Que tipos de tecnologias e benefícios já foram incorporados a partir do programa? Quantas empresas estão envolvidas no programa? Qual é o papel da Embraer no programa e qual o volume de investimentos?

A iniciativa surgiu a partir de um programa criado pela Embraer para desenvolver seus fornecedores, em 2011 – que mais tarde ganhou parceria da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Parque Tecnológico de São José dos Campos e foi renomeado para Programa de Desenvolvimento da Cadeia Aeronáutica (PDCA). Seu objetivo é transbordar boas práticas de gestão para que os fornecedores se tornem cada vez mais competitivos e, no futuro, também se tornem empresas exportadoras. Fazem parte do programa as 70 empresas da cadeia nacional da indústria aeroespacial.

O Programa atua sobre quatro pilares: atendimento, redução de custos, qualidade e eliminação de desperdícios. As ações do PDCA são construídas a partir da aplicação de modelos de excelência em gestão, filosofia lean, práticas de kaizen (melhoria contínua) e planejamento estratégico. Como resultado do PDCA, em 2016, pelo sexto ano consecutivo, a cadeia nacional de empresas fornecedoras da indústria aeroespacial apresentou crescimento com relação ao ano anterior.

No ano [em 2016], foram mais de 65 mil tipos de peças diferentes fornecidas para a Embraer, mais do que dobrando o portfólio de 32 mil peças oferecidas em 2010. Em faturamento, o aumento também foi expressivo: o volume financeiro de vendas dessas empresas para a fabricante de aviões cresceu 73% no mesmo período. A Embraer, enquanto empresa líder da cadeia, concebeu a primeira versão do programa e hoje é co-responsável por conduzi-lo, orientando as empresas, disponibilizando instalações e equipes para as visitas, reuniões e kaizens. A empresa não informa o volume de investimentos na iniciativa.

Que outras iniciativas digitalização/integração/automação da cadeia produtiva da Embraer podem ser mencionadas?

Como parte das iniciativas visando desenvolver seus fornecedores, a Embraer começou a replicar este ano [em 2016] seu programa de melhoria incremental “Boa Ideia” nas empresas da cadeia nacional da indústria aeronáutica. Neste primeiro ano de implantação, ainda como piloto, o “Boa Ideia na Cadeia de Fornecedores” foi adotado por sete das 70 empresas integrantes da cadeia. E os resultados já são expressivos: considerando-se apenas a melhor ideia adotada em cada empresa, o benefício total obtido foi de R$ 826 mil. Praticado desde 1988 na Embraer, o programa Boa Ideia incentiva a participação dos empregados a propor continuamente melhorias em processos internos em busca da excelência.

Há programas específicos para estimular a cultura de inovação dentro da empresa?

Na Embraer, a inovação é transversal: ocorre em modelo de negócios, parcerias, processos, gestão, serviços e diversificação de Negócios. Pela própria natureza da indústria aeronáutica, no desenvolvimento de tecnologias pré-competitivas, a visão é de inovação no longo prazo, construída em parceria com redes de conhecimento formadas por universidades, institutos de pesquisa e outras empresas em diversas regiões do mundo.

Internamente, a empresa estimula a inovação por meio do Programa Innova, que possui frentes de inovação espontânea e estimulada:

- Na frente de inovação espontânea, o programa Green Light avalia as propostas inovadoras apresentadas pelos empregados voluntariamente. Se aprovadas, as pessoas passam a contar com tempo e recursos para desenvolver os projetos.

- Na frente de inovação estimulada, existe o programa Desafio Innova, no qual desafios são lançados para que os empregados trabalhem nas possíveis soluções.

Além disso, há 28 anos a empresa possui o Programa de inovação incremental Boa Ideia.

Quais são as próximas prioridades e desafios da Embraer para modernizar ainda mais sua produção, dentro do conceito de Indústria 4.0? (o sensoriamento do parque industrial é um desses desafios?)

Na linha de produção do E2, o último grande pacote de automação que falta ser concluído é o alinhamento da junção da fuselagem. Até meados do próximo ano [ele refere-se a 2017], o nivelamento do processo de junção de fuselagem do E2 será feito de forma automática.

O próximo desafio é investir mais no sensoriamento do parque industrial para que a produção possa ter acesso às informações em tempo real, aumentando a velocidade na tomada de decisão e tornando a operação mais eficiente.